Quinta-feira, Março 19, 2009

O amor ilimitado

Algum homem indigno de possuir um amor velho ou novo , sendo ele próprio falso ou fraco , pensou que a sua dor e vergonha seriam menores se a sua ira sobre as mulheres descarregasse.

E então uma lei nasceu : que cada uma um só homem conhecesse.
Mas são assim as outras criaturas ?

São o sol , a lua , as estrelas proibidos por lei
de sorrir para onde lhes apetece , ou de esbanjar a sua luz ?

Divorciam-se os pássaros , ou são censurados
se abandonam o seu par , ou dormem fora uma noite ?

Os animais não perdem as suas pensões ainda que escolham novos amantes , mas nós fizemo-nos piores do que eles. Quem já armou belos navios para ancorar nos portos , em vez de buscar novas terras, ou negociar com todos ?

Ou construiu belas casas , plantou árvores e arbustos , apenas para as trancar, ou então deixá-los cair ?

O Bom não é bom , a não ser que mil coisas possua , mas arruina-se com avidez.

*Jonh Donne
Do livro: "John Donne, o poeta do amor e da morte:, de Paolo Vizioli


Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Apesar de


Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de , se deve comer.
Apesar de , se deve amar.
Apesar de , se deve morrer.

Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.
Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.
Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi.

E desde logo desejando você , esse teu corpo que nem sequer é bonito , mas é o corpo que eu quero.
Mas quero inteira, com a alma também.
Por isso , não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.


Clarice Lispector

Terça-feira, Agosto 12, 2008

Belo belo

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto

Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida.
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco

Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdad e Cusco

Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa

Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero

* Manuel Bandeira -Petropólis, fevereiro de 1947

Quarta-feira, Julho 16, 2008

Ultimatum

Mandato de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu, reles
esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridadee
tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!

Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar

Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai
Frouxos

Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora

Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo
Nenhuma idéia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma idéia grão

E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro

O que aí está não pode durar
Porque não é nada
Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico
E saudando abstratamente o infinito."

*Álvaro de Campos, em 1917
Maria Betânia recita :


Terça-feira, Julho 08, 2008

Canção do vento e da minha vida



O vento varria as folhas,
o vento varria os frutos,
o vento varria as flores...
E a minha vida ficavacada vez mais cheiade frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
o vento varria as músicas,
o vento varria os aromas...
E a minha vida ficava cada vez mais cheiade aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
e varria as amizades...
o vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia de afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
e varria os teus sorrisos...
o vento varria tudo!
E a minha vida ficavacada vez mais cheia de tudo.

*Manuel Bandeira(de Estrela da Manhã, em Antologia Poética, org. Emmanuel de Moraes, José Olympio Editora, Rio, 1986)

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Cortar o tempo


Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente


*Carlos Drummond de Andrade

Terça-feira, Maio 13, 2008

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo que está onde as outras coisas nunca estão, deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras?
Tudo.
Que desejas?
- Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...

Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.

Cecília Meireles