Sexta-feira, Junho 29, 2007

Subversiva


A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
Ferreira Gullar

Terça-feira, Junho 26, 2007

Posseidon

Poseidon estava sentado à sua mesa de trabalho e fazia contas.
A administração de todas contas.
A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho infinito.
Poderia dispor de quantas forças auxiliares quisera, e com efeito, tinhas muitas, mas como tomava seu emprego muito a sério, verificava novamente todas as contas, e assim as forças auxiliares lhe serviam de pouco.
Não se pode dizer que o trabalho lhe era agradável e na verdade o realizava unicamente porque lhe tinha sido imposto; tinha-se ocupado, sim, com frequência, em trabalhos mais alegres, como ele dizia, mas cada vez que se lhe faziam diferentes propostas, revelava-se sempre que, contudo, nada lhes agradava tanto como seu atual emprego.
Além do mais era muito difícil encontrar uma outra tarefa para ele.
Era impossível designar-lhe um determinado mar; prescindindo de que aqui o trabalho de cálculo não era menor em quantidade, porém em qualidade, o Grande Poseidon não podia ser designado para outro cargo que não comportasse poder.
E se se lhe oferecia um emprego fora da água, esta única idéia lhe provocava mal-estar, alterava-se seu divino alento e seu férreo torso oscilava.
Além do mais, suas queixas não eram tomadas a sério; quando um poderoso tortura, é preciso ajustar-se a ele aparentemente, mesmo na situação mais desprovida de perspectivas.
Ninguém pensava verdadeiramente em separar a Poseidon de seu cargo, já que desde as origens tinha sido destinado a ser deus dos mares e aquilo não podia ser modificado.
O que mais o irritava - e isto era o que mais o indispunha com o cargo - era inteirar-se de que como o representavam com o tridente, guiando como um cocheiro, através dos mares. Entretanto, estava sentado aqui, nas profundidades do mar do mundo e fazia contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem da qual além do mais, quase sempre regressava furioso.

Daí que mal havia visto os mares, isso acontecia apenas em suas fugitivas ascenções ao Olimpo, e não os teria percorrido jamais verdadeiramente.
Gostava de dizer que com isso esperava o fim do mundo, que então teria certamente ainda um momento de calma, durante o qual, justo antes do fim, depois de rever a última conta, poderia fazer ainda um rápido giro.

Frans Kafka

Quinta-feira, Junho 21, 2007

Amanhecimento


De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturamno acaso
o caso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras ,todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara, nossa noite está acostumada.

Elisa Lucinda

Segunda-feira, Junho 18, 2007

Espaço curto e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

José Saramago

Quinta-feira, Junho 14, 2007

Dialética



É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

Vinícius de Moraes

Terça-feira, Junho 12, 2007

A ignorância


Durante os vinte anos da sua ausência, os habitantes de Ítaca conservaram muitas recordações de Ulisses mas não sentiam por ele qualquer nostalgia. Enquanto Ulisses sofria de nostalgia e não se recordava de quase nada.
Pode compreender-se esta curiosa contradição se se considerar que a memória, para poder funcionar bem, precisa de um treino incessante: se as recordações não são evocadas, uma vez mais e outra vez ainda, nas conversas entre amigos, vão-se embora. Os emigrados agrupados em colónias de compatriotas contam uns aos outros até à náusea as mesmas histórias que, assim, se tornam inesquecíveis.
Mas os que não frequentam os seus compatriotas, como Irena ou Ulisses, são inevitávelmente feridos de amnésia. Quanto mais forte é a sua nostalgia, mais se esvazia de recordações. Quanto mais Ulisses enlanguescia, mais esquecia. Porque a noltalgia não intensifica a atividade da memória, não desperta recordações, basta-se a si própria, à sua própria emoção, absorta por completo como está no seu próprio sofrimento.(…)E, convencidos de que nada a não ser a sua Ítaca lhe interessava (como teriam podido não o pensar se ele percorrera a imensidão dos mares para regressar ali?) seringavam-lhe o que se passara durante a sua ausência, ávidos de responderem a todas as suas perguntas.
Nada o aborrecia mais que isso. Só esperava uma coisa; que lhe dissessem enfim:conta!
E foi a única palavra que nunca lhe disseram.Durante vinte anos só pensara no seu regresso. Mas uma vez de volta compreendeu, espantado,que a sua vida, a própria essência da vida, o seu centro, o seu tesouro, perdera-o e só poderia reeencontrá-lo contando.
Depois de ter deixado Calipso, durante a sua viagem de regresso naufragara na Feácia, onde o rei o recebera na sua corte. Aí era um estrangeiro, um desconhecido misterioso. A um desconhecido pergunta-se: “Quem és tu? De onde vens? Conta! E ele contara.
Durante oito longos cantos da Odisséia reconstruíra com minúcia as suas aventuras diante os Feácios assombrados.
Mas em Ítaca não era um estrangeiro, era um deles e era por isso que ninguém pensva em dizer: “Conta!”
Milan Kundera

Sexta-feira, Junho 08, 2007


Quarta-feira, Junho 06, 2007


“Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente,
uma parte da terra;
se um torrão é arrastado para o mar,
a Europa fica diminuída,
como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a morte de qualquer homem diminui-me,
porque sou parte do género humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
John Donne

Terça-feira, Junho 05, 2007

Sons do pensamento


se a vida se fizer turbulenta
serão minhas as dores nela
não há calmaria sem procela
nem sofrer sem ensinamento...
tão maior o mar, maior a pena...
dor de passagem na aragem
terei o descanso da bonança
no adormecer como criança
ouvirei sons do pensamento...
vitória e vida menos pequenas...


Antonio Miranda Fernandes

Sexta-feira, Junho 01, 2007



um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Paulo Leminski