Segunda-feira, Maio 28, 2007

Querer

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.
(Pablo Neruda)

Sábado, Maio 26, 2007

De libélula á borboleta




Fugistes querida, bem sei,
para em teu castelo te ocultar!
Por que te amedrontas tanto assim?
Duvidas de mim?
Não resistes aos meus galanteios,
ou outro tens a te encantar?
Não vê que por pouco tempo te secretarás?
Pois no impulso do tempo teu casulo romperás?
Que fazes aí?
Se nem o sol descortinas a raiar?
Tuas amigas, companheiras, já estão a te sondar.
Aflitas, querem te escutar.
Não ouves o seu farfalhar?
Flores multicoloridas como tuas asas, aquí estão a te espreitar.
Pensam... Que faz essa menina sem trabalhar?
Descansa sem parar?
É a lei da Natureza: deve polinizar
Veja, estrelas estão a brilhar!
E, nossos olhos a encantar.
Sai Amor! Todos estão a te esperar.
E eu, sofrendo, ansioso, a te aguardar.
Não precisas tanto te enfeitar.
És bela como o Luar.
Fostes obra da Mãe Natureza,
e até a Lua está a te invejar.
Vem querida, não demore ...
Pois, louco estou pra te beijar.
E, tuas faces acariciar.
Elas rubras como carmim, a me aceitar.
Ah, deixa-me sonhar!
Sai amor, este "casulo" é pobre, é escuro ,
não serve pra te abrigar, te aconchegar.
Muito mais estou a te ofertar.
O Castelo é lindo, crê em mim, vais adorar!
Em noites enluaradas, horas e horas, sem fim, me ponho a pensar.
Que fiz de tão mal, ó Deus, pra sofrer tanto assim?
Quantas noites ainda devo aguardar, pra minha Princesa se aprontar.
Por que me rejeitar?
Se em seus pés coloco todo o meu ser, todo o meu viver.
Outro tens disputando o teu coração?
E, pensas em lhe dar a mão.
Estas Belas Asas Azuis, Não!
Não resistirei, e ele enfrentarei .
Pensa enquanto aí estás, só amar?
O que vais ganhar?
Sei que fugistes para meditar.
Pois não era hora de tuas vestes trocar!
Só peço: não tardes tanto!
Posso perder o encanto!
E, nos caminhos de tua vida outro podes,
não encontrar que tão enamorado e ardente esteja
Que tanto se exponha e, te deseja!
Em uma noite de luar outro sincero amor encontrar.
Seu Príncipe Encantado, seu Eterno Namorado
O Pirilampo Enamorado!


Das minhas viagens noites afora com insônia.........

Segunda-feira, Maio 21, 2007


Estrofes para a Música
Não há filha da Beleza Com mágica como a tua
E, tal música nas águas,
Tua voz em mim atua:
Quando, com seu som vem motivar
O encantado oceano a vacilar,
As ondas pairam calmas e brilhando
E os ventos em sossego divagando:
E a lua à meia-noite elaborando
Seu luzente colar sobre a descida;
O seio docemente palpitando
Como criança adormecida:
Assim o espírito inclinado a ti
A fim de ouvir e adorar a ti
Com plena mas suave comoção,
Como o inflar do oceano do Verão.
Lord Byron

Sábado, Maio 19, 2007

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:— mais nada.
Cecília Meirelles

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Silêncio


Há qualidades incórporeas, de existência dupla, nas quais segunda vida se produz, como a entidade dual da matéria e da luz.
De que o sólido e a sombra espelham a evidência.
Há pois, duplo silêncio; o do mar e o da praia, do corpo e da alma; um, mora em deserta região que erva recente cubra e onde, solene, o atraia lastimoso saber; onde a recordação
O dispa de terror; seu nome é "nunca mais";
E o silêncio corpóreo.
A esse, não temais!Nenhum poder do mal ele tem.
Mas, se uma hora um destino precoce (oh, destinos fatais!)
Vós levar as regiões soturnas, que apavora sua sombra, elfo sem nome, ali onde humana palma Jamais pisou, a Deus recomendai vossa alma!

Edgar Allan Poe

Canção


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadasdo azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
cobre as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo meu sonho dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça ,
e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas ,meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meirelles

Quarta-feira, Maio 02, 2007



A Implosão da Mentira


Mentiram-me.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes.Alegremente mentem.
Mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem.Mentem e calam.
Mas suas frases falam.
E desfilam de tal modo nuas que mesmo um cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade pela mentira, nem à democracia pela ditadura.
Evidente/mente a crer nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanente.
Mentem. Mentem caricatural- mente.
Mentem como a careca mente ao pente, mentem como a dentadura mente ao dente,
mentem como a carroça à besta em frente, mentem como a doença ao doente,
mentem clara/mente como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente, como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o linho.
Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente.
Mentem ardente/mente como um doente em seus instantes de febre.
Mentem fabulosa/mente como o caçador que quer passar gato por lebre.
E nessa trilha de mentiras a caça é que caça o caçador com a armadilha.
E assim cada qual mente industrial?
mente, mente partidária?
mente, mente incivil?
mente, mente tropical?
mente, mente incontinente?
mente, mente hereditária?
mente, mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constróem um país de mentira -diária/mente.


Affonso Romano de Sant'Anna